Já que vocês gostaram, mando uma seleção especial para dar água na boca ;)
sexta-feira, 10 de maio de 2013
quarta-feira, 8 de maio de 2013
Cineastas Indígenas para Jovens e Crianças
Queridos leitores,
Coleção em formato disponível na íntegra em:
www.videonasaldeias.org.br
gostaria de dizer que essa parceria com o Vídeo nas Aldeias está rendendo muitos frutos e se desdobrando em diversos projetos de livros-filmes para crianças de todo Brasil! Enquanto terminamos esse nosso livrinho, feito com capricho, em processo colaborativo com a comunidade Ashaninka e com patrocínio da FUNARTE, vejam só o que aprontamos com a UNESCO: um guia didático para jovens e criancas sobre 6 povos indígenas no Brasil! É de graça, só dar um pulo no site do Video nas Aldeias e baixar, tanto o livro como os 6 filmes que escolhemos e preparamos para o público infantil! Aqui vai uma palinha:
"Olá!
Esse livro que você tem nas mãos faz
parte da Coleção Cineastas Indígenas para
Jovens e Crianças, um guia de filmes e de
histórias feito por um grupo de pessoas que
gosta muito de cinema e que se interessa
muito pelos índios. Esse pessoal trabalha
numa ONG chamada Vídeo nas Aldeias, que
realiza oficinas de vídeo com diferentes povos
indígenas Brasil afora. Falar de cinema, índio,
cineastas indígenas te parece estranho? Então
prepare-se, pois a partir de agora você entrará
numa aventura repleta de “estranhezas” (mas
que logo logo deixará de ser tão estranha
assim), surpresas e descobertas!
Você, que já sabe um tanto de coisas,
deve saber bem que pra viver uma aventura
e desbravar outros mundos é preciso ter o
espírito aberto, tipo quando a gente conhece
alguém e fica só olhando, ouvindo, prestando
atenção pra ver como é aquela pessoa. Daí
a gente descobre seus gostos, seu jeito de
falar, de rir, suas esquisitices, suas histórias,
coisas que a gente nem imaginava que podia
existir dentro de uma pessoa só. E aí a gente
passa a gostar dessa pessoa, ou pelo menos,
entendê-la um pouquinho mais. De repente a
gente vira até amigo, vai saber. Mas, o mais
importante é que chegando perto dessa
pessoa a gente aprende a respeitá-la. Pois
é um pouco essa a ideia desse livro: chegar mais perto da vida e das histórias de alguns
dos povos indígenas que vivem no Brasil pra
gente começar a entender quem eles são e
respeitá-los nas suas diferenças.
Podemos combinar assim: para assistir
aos filmes que a gente escolheu pra você, a
primeira coisa a fazer é deixar de lado algumas
velhas ideias e preconceitos.(...)Quando você começar a assistir aos
filmes, temos certeza que muitas coisas irão
passar pela sua cabeça: esses povos moram no
Brasil, mas falam outras línguas? Adoram outros
deuses? Estudam em escolas nas florestas?
Usam câmeras de filmar? Chinelos de dedo?
Celular? Como fazem suas casas? Como vivem
nas florestas e nos cerrados? Que outras gentes
e animais habitam estas mesmas paisagens?
Os filmes que apresentamos aqui
respondem algumas dessas perguntas. Outras
ficarão no ar e caberá a você continuar a aventura
da descoberta. Mas se essa história de estudar outras
culturas te parece meio à toa (ou mesmo
chato!), pense nesses filmes como uma viagem,
dessas onde a gente passa a conhecer pessoas e
lugares distantes e, depois de voltar pra casa, a
gente descobre que as coisas já não são mais as
mesmas: não porque elas mudaram, mas porque
a gente mudou dentro. Não é isso o mais bonito
de uma viagem? O que em nós se transforma no
caminho?
Por isso agente acredita que conhecer as culturas indígenas e afrodescendentes do Brasil, esse nosso país enorme, com tantas dificuldades
sociais, ambientais e econômicas, é importante.
Pra que a gente possa reconhecer e valorizar
a vida humana e a sua diversidade. Se somos
diferentes é porque, no longo percurso do ser
humano por este vasto e desconhecido planeta
que habitamos, povos diferentes escolheram
caminhos diferentes para viver. Assim, convidamos você a se aproximar
desses outros mundos e se deixar invadir por
eles. Temos certeza que será uma aventura
preciosa, instigante e repleta de aprendizados.
Bons filmes! Boa leitura!"
Coleção em formato disponível na íntegra em:
www.videonasaldeias.org.br
domingo, 14 de abril de 2013
Divagações na Floresta
Aqui também é domingo. Chove. As galinhas ciscam, nervosas, embaixo da casa, e uma luz lavada se esparrama pela paisagem. Dora não pode terminar de tingir as kusmas e se dedica à costura. O trabalho segue bem. Começamos uma oficina de tradução em cima do texto do livro. A gramática Ashaninka é muito interessante, os verbos vem primeiro nas frases, depois seguem o sujeito, os objetos e adjetivos. A força de separar os períodos e devido a algumas repetições começo a intuir, vagamente, algo da língua.
Tayri abraçou a pintura e vem mesmo durante o final de semana produzir um pouco. Mas hoje os papéis estão moles, as tintas não secam e as cores se misturam a revelia da nossa vontade. O dia está molhado, assim como a nossa vontade. A lama domina o campo de futebol que ficou esquecido, entregue as poças e aos calangos que passam, apressados, a procura de abrigos melhores.
Alguns estão preocupados com a tensão bélica na Coreia, Moisés se inqueita com a rota dos traficantes, Dona Piti maldiz os caçadores que mataram quatro antas dentro do terrítório e passaram rio abaixo com mais de cem quilos de carne. Benki veio para a aldeia tentar reunir um grupo para fazer pressão política em prol de seu projeto de gestão ambiental para o Município de Marechal Taumaturgo numa reunião com o governo em Cruzeiro do Sul.
Atrávez deles seguimos conectados com o mundo, intelectual e espiritualmente, por uma perpectiva e um sentimento próprio de pertencimento e autênticidade. Com suas questões políticas, ambientais e humanas, suas próprias urgências e perigos. Ter o privilégio de estar aqui, de ver e viver tudo isso, nos torna, automaticamente, aliados dessa gente em seu caminho. Faz com que sejamos um pouquinho, e humildemente, porta-vozes da sua sabedoria e sensibilidade por outros caminhos pelo mundo afora.
É domingo. Mercedes Soza canta "Gracias à la Vida" no MacBook em que o macaco tenta aprender a digitar.
Fotos de Amanda de Stéfani
sexta-feira, 5 de abril de 2013
Família Ashaninka
Nossos melhores amigos na aldeia são, naturalmente, os nossos vizinhos. Nossas casas são voltadas uma para a outra e o tempo todo observamos, discretamente, o movimento de lá enquanto eles, por sua vez, espiam nossas atividades aqui.
Dora, nossa vizinha de frente, zela por nós discretamente e, a cada dois dias, nos manda por Erychi, sua filha mais velha, uma cacho de bananas, algumas laranjas. Nós retribuímos como podemos com um pouco de sabão e muitos sorrisos, já que nossos víveres são escasos. Ontem a ajudamos a colher e a limpar as sementes que servem de enfeite para as cusmas (suas roupas tradicionais).
Hoje foi um dia especial: ganhamos uma panela de caldo de açaí preparado por Tayri, o mais velho dos meninos, e um pedaço de carne paca fresquíssima! Os meninos são educados, inteligentes e alegres e já prevejo a falta que vou sentir deles.
De vez em quando atravessam o terreiro e vem até a nossa casa escutar um pouco de música, desenhar conosco ou, simplesmente, nos fazer uma visita. Agora de noite, enquanto eles jantam em familia e eu escrevo sobre eles, ouço Bianca, a caçula, contar perplexa para sua mãe que nós comemos o açaí com banana e demos ao macaco um nome bizarro! Eles são um espelho da nossa própria surpresa e curiosidade.
Boa noite Dora, Erychi, Tayri, Pianko, Bianca, que estão se tornando um pouco nossa família Ashaninka.
Fotos de Amanda de Stéfani
terça-feira, 2 de abril de 2013
Fauna Cotidiana
Nossa casa tem toda uma fauna própria. A começar por Gigio, o macaco, que vem nos visitar todos os dias. Ele dorme nas árvores, mas logo que o dia amanhece, vem sacudir os mosquiteiros das nossas redes. É uma peste! Já nos roubou mais de três bananas e um punhado de uvas passas, adora escalar cabeças, mas ninguém consegue zangar-se seriamente com ele.
Também tem Silvia, uma cobra verde, que mora no nosso telhado, mas, apesar do susto que levei outro dia quando ela quase caiu na minha cabeça, os índios disseram que ela não é perigosa e a chamam de "cobra enxerida". Erish até gosta de usá-la como colar!
De dia, é impossivel evitar que as galinhas visitem a nossa cozinha, de noite os ratos e, a qualquer hora, as baratas, as formigas, as aranhas, e, onde quer que vamos, os piúns (mosquitos) que, nessa época de chuvas, são de enlouquecer até os índios.
Como esquecer dos macheros, sapos gordos que povoam o terreiro e que as crianças, cruelmente, gostam de usar como bola. Nas duas últimas noites, têm nos visitado um morcego que entra e sai ao seu bel prazer já que não temos paredes, apenas telhado e, neste momento que vos escrevo (é madrugada) cruzou por aqui um quati, muito ligeiro, de olhos amarelos faiscando na escuridão.
Estranhamente, sentimos uma espécie de comunhão com todas essas criaturas que, ao invés de nos ameaçar, parecem partilhar conosco o desafio de viver. Ok, tiremos dessa conta as baratas - e os mosquitos! Mas, seguindo o conselho de Benki, devemos ser amigos dos piúns pois só assim eles serão nossos amigos. Estamos tentando...
Também tem Silvia, uma cobra verde, que mora no nosso telhado, mas, apesar do susto que levei outro dia quando ela quase caiu na minha cabeça, os índios disseram que ela não é perigosa e a chamam de "cobra enxerida". Erish até gosta de usá-la como colar!
De dia, é impossivel evitar que as galinhas visitem a nossa cozinha, de noite os ratos e, a qualquer hora, as baratas, as formigas, as aranhas, e, onde quer que vamos, os piúns (mosquitos) que, nessa época de chuvas, são de enlouquecer até os índios.
Como esquecer dos macheros, sapos gordos que povoam o terreiro e que as crianças, cruelmente, gostam de usar como bola. Nas duas últimas noites, têm nos visitado um morcego que entra e sai ao seu bel prazer já que não temos paredes, apenas telhado e, neste momento que vos escrevo (é madrugada) cruzou por aqui um quati, muito ligeiro, de olhos amarelos faiscando na escuridão.
Estranhamente, sentimos uma espécie de comunhão com todas essas criaturas que, ao invés de nos ameaçar, parecem partilhar conosco o desafio de viver. Ok, tiremos dessa conta as baratas - e os mosquitos! Mas, seguindo o conselho de Benki, devemos ser amigos dos piúns pois só assim eles serão nossos amigos. Estamos tentando...
Fotos de Amanda de Stéfani
A Vida na Aldeia
Os Ashaninka daqui vivem na pontinha do Brasil, quase na fronteira com o Peru, bem no meio da floresta amazônica, às margens do rio Amônia, numa aldeia chamada Apiwtxa. Uma aldeia muito bonita, diga-se de passagem, com casas suspensas espalhadas pelas duas margens do rio. Eles fazem a travessia de canoa e, de manhã, uma névoa cobre tudo de branco. Temos a impressão de estar em um outro mundo, em um outro tempo, ou dentro de um sonho.
Aos poucos o sol vai dissipando a bruma e os risos das crianças e o cocoricó das galinhas enchem o ar. O movimento na aldeia começa. Homens e mulheres passam para lá e para cá munidos de facões e cestas, vão tirar mandioca no roçado, lavar roupa no rio, pescar, arrumar uma casa.
Os Ashaninka são altivos, orgulhosos, mas cordiais. Alguns inspiram realmente uma realeza (usando termos bem ocidentais): são como principes da floresta. É bonito de ver. Nossa presença passa quase invisível em meio as atividades do dia, com breves acenos de cabeça ou sorrisos fulgazes. De noite, um som de tambor ao longe, a imagem de um ritual silencioso sob o céu, um véu de estrelas e a sensação do quão diverso e vasto é o mundo.
Fotos de Amanda de Stéfani
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